Apática

2015 – Formato

Texto e ilustrações: Marcelo Xavier

“Apática é uma cidade perdida no tempo e no espaço, situada depois do longe mais longe, fora do alcance da mão do mundo. A época é qualquer uma; para seus moradores não importam as horas, os dias ou os anos, absoluta é a indiferença das pessoas do lugar. Lá ninguém sorri ou chora. Não há jardins ou árvores nas ruas, mas há um hotel – o único destaque da cidade.

Eis que um forasteiro, de cabelos grisalhos, barba e bigode castanhos e aparência saudável de um jovem viajante, chega para hospedar-se no hotel, trazendo consigo uma mala. Não é uma mala qualquer; ela se destaca na luz do sol,  despertando no porteiro do hotel uma terrível curiosidade. Como um sentimento assim nunca lhe ocorrera antes, o porteiro acredita que dentro dela há algo especial. E de fato há. Há uma magia, que faz acordar os sentimentos que os apáticos não sabem o que é sentir”.

Nascer significa apenas o início de uma viagem em que você, ao mesmo tempo, é passageiro e bagagem. No corpo vai o passageiro; na alma, a bagagem. Durante o longo percurso, perdemos preciosas companhias, ganhamos outras. Gestos, olhares e relações ficam – memórias de emoções e sentimentos que vão se acumulando.

Faz tempo, deixei minha estação de partida: Ipanema, Minas Gerais, em 1949. Depois desse primeiro trecho, a parada foi em Vitória, que durou toda a infância. Nos anos de 1960, o adolescente desembarcou em Belo Horizonte. Por ali cresceu, tornou-se andarilho da diversidade – sempre em direção à arte. De tudo fez no caminho: livros, cores, traços, objetos, personagens, figurinos, cenários, carnaval, poesia.

2015. Acabo de cumprir um longo voo de criação e retornar à base. Na bagagem trouxe “Apática”: texto e imagens de uma nova história.

“Apática” surgiu da incômoda sensação de que um grande número de passageiros viaja sem bagagem. Por negligência ou simples desatenção, parecem tê-la esquecido em alguma parada.

Marcelo Xavier.

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